As feições de Issa não carregam apenas as marcas de uma vida inteira. Em seu olhar, é o tempo presente que nos sorri.

Aos 70 anos, seu corpo desafia a ditadura da juventude: forte, dourado, coroado pela prata dos fios que tingem sua cabeça.
Issa Meguer
Há nela uma beleza e uma pulsão de vida que nos lembra o sorriso das divas.
A história de Issa parece entrelaçada ao destino da capital. Natural de Anápolis, Goiás, ela nasceu em 1956, no exato horário em que Juscelino Kubitschek tomava posse como Presidente do Brasil. Sua primeira memória de Brasília remete a 1959, quando a cidade ainda era um rascunho de poeira vermelha e acampamentos destelhados.
Issa mudou-se definitivamente para o Planalto Central aos 17 anos, para concluir o segundo grau e ingressar na UnB. Onde outros viam apenas quadras e blocos simétricos que confundiam o olhar, ela aprendeu a ler a geografia da cidade que se tornava seu lar.
Seu ponto de virada foi um encontro de circunstâncias. Em 2011, a leitura despretensiosa de um jornal em São Paulo despertou seu interesse por agências de modelos para a terceira idade. Depois veio o teatro, e o que começou como um pretexto para ganhar desenvoltura nos trabalhos de modelo transformou-se em vocação.
Aos 63 anos, numa idade em que o mundo muitas vezes convida as mulheres à invisibilidade, Issa torna-se uma atriz. Sua carreira começa, não como um mero passatempo, mas como uma expressão de autenticidade que dispensa pudores vazios, encarnando personagens com a liberdade de quem não precisa pedir licença para nada.
ENCONTRO COM BRASÍLIA
OS PAPÉIS DA VIDA
Longe das telas e palcos, Issa desempenhou durante décadas os papéis que a sociedade espera das mulheres: filha, mãe, servidora pública, avó.
Ainda hoje ela transita entre os trabalhos visíveis e os invisíveis, dedicando-se até mesmo aos cuidados do ex-companheiro, com um altruísmo que desconhece o desamor.
O prêmio de Melhor Atriz da Mostra Brasília que ganhou no 55° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é um testemunho vivo de que a potência feminina não se curva ao etarismo.
Issa personifica muitas outras mulheres que, assim como ela, não apenas ocupam espaços que lhes são negados – ela os transcende, quebrando barreiras com a sutileza e a força de quem sabe que nunca é tarde demais para nos tornarmos o que almejamos ser.
O DESPERTAR ARTÍSTICO
UM SÍMBOLO DE OUTRAS MULHERES












Nesta seleção, as características associadas ao envelhecimento, os cabelos brancos e as marcas de expressão, são protagonistas, subvertendo a lógica da invisibilidade.
ISSA POR WALÉRIA GREGÓRIO
Evoca-se uma coragem espirituosa, provando que a alegria e a irreverência não têm prazo de validade. É um manifesto visual sobre a liberdade de habitar o tempo com orgulho e entusiasmo.
A mistura de elementos cênicos, o maiô, as plumas e os óculos de sol cria um contraste entre os papéis sociais impostos e as escolhas de quem decide viver com audácia.



